Tem coisa mais baixa do que usar o choro de uma mãe como trilha sonora para o próprio engajamento? Difícil. […]

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Quando o luto vira palanque e os likes valem mais que a dor

Tem coisa mais baixa do que usar o choro de uma mãe como trilha sonora para o próprio engajamento? Difícil. Em tempos em que político virou influencer de tragédia, parece que o sofrimento virou moeda de troca por curtidas, e o luto virou palco.

Mal o corpo esfria, lá está o deputado, o vereador, o aspirante a qualquer cargo, postando vídeo com fundo cinza, cara compungida e a frase ensaiada: “isso não pode ficar impune”. Claro que não pode, mas o problema é que nunca ficam por perto pra fazer alguma coisa além da foto. Preferem expor a família dilacerada, câmera no rosto da viúva, legenda apelativa e menção ao rival político como o grande vilão. Mas não estendem a mão, não ligam no dia seguinte, não oferecem ajuda de verdade. A empatia é seletiva, e só dura enquanto os números da publicação estiverem subindo.

É revoltante ver políticos farejando tragédia como urubu sente cheiro de carniça. Morreu alguém em um buraco na pista? Eles não estavam fiscalizando antes. Mas agora, na calçada esburacada, de terno e pose, fazem seu monólogo teatral com mais drama do que novela mexicana. Apontam, filmam, gritam. Tudo para mostrar que se importam — mas só até o próximo escândalo render mais likes.

E antes que digam que isso é sobre direita ou esquerda, que fique claro: é sobre caráter, ou melhor, a falta dele. Não importa se é Manaus, Recife, Belém, São Paulo ou qualquer canto desse país esburacado e mal gerido. A doença é a mesma: a política do espetáculo em cima da dor. E quem sofre de verdade são as famílias, que além da perda, têm que suportar suas tragédias virando memes políticos.

A dor deveria ser respeitada. A lágrima, acolhida — não publicada com filtro e moldura partidária. Enquanto uns choram de verdade, outros encenam com cinismo. A empatia, aquela que exige silêncio, presença e cuidado, anda em falta no estoque dessas lideranças que só sabem aparecer quando tem holofote.

Chega de espetáculo com a desgraça dos outros. A vida real não é feed de rede social. E gente de verdade, com coração e vergonha na cara, deveria saber disso.

*Sid Sheldowt é Escritor, poeta e compositor.

 

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