Ainda bem que o racismo no Brasil é tolerado pacificamente, não é como em outros países onde o ódio é […]

O racismo tolerado pacificamente

Ainda bem que o racismo no Brasil é tolerado pacificamente, não é como em outros países onde o ódio é tradicional, explícito, sem nenhuma camuflagem e de forma bastante direta. Estudando a história um pouco mais recente, consequentemente, nos deparamos com situações revoltantes que são imperdoáveis perante a visão revolucionária de qualquer outra sociedade alimentada pelo bom senso cristão que, mesmo sem a Bíblia debaixo do braço, não leva ao extremo o racismo, os preconceitos estéticos e religiosos que separam adoradores de um mesmo Deus.

A Segregação racial e de etnias que existiram na África do Sul – e que, até hoje, perpetuam em algumas outras nações – são contrastes resultantes das próprias Escrituras Sagradas, das quais eles carregam o tempo todo e leem para seus filhos.

O racismo norte-americano – que conseguiu contaminar a cultura por várias décadas após o término da escravidão – sempre foi motivo de discussões e repúdio moral, onde vários hotéis não permitiam hóspedes negros e nem a entrada dos mesmos em seus recintos, além dos restaurantes mais sofisticados da época que eram proibidos de servir clientes negros. Até mesmo dentro de um ônibus, por exemplo, se uma pessoa negra estivesse sentada e uma pessoa branca adentrasse naquele ambiente, logo, a pessoa negra era obrigada [por lei!] a ceder o seu lugar àquela pessoa branca.

Tais leis foram banidas nos dias atuais. Porém, o racismo ainda se faz intensamente presente naquele país, só que agora é mais enfraquecido, tendo em vista que os negros norte-americanos já ocupam seu lugar ao sol devido à grande quantidade de personalidades famosas que lutaram por seus direitos civis, como Martin Luther King, Malcom X, Mohamed Ali, dentre tantos outros.

A música dominante nos EUA, atualmente, é proveniente da cultura negra. Os cantores mais bem sucedidos são negros; a moda do momento é o estilo negro de se vestir; a predominância dos negros no esporte também é visível [NBA, NFL e também no atletismo], inclusive, em esportes tipicamente dominados por brancos. E quem, um dia, poderia imaginar um negro como um dos maiores jogadores de golfe de todos os tempos? Ou mesmo uma negra entre as melhores tenistas do mundo?

Os negros norte-americanos se estabilizaram nessa sociedade preconceituosa depois de muitos anos de escravidão, exclusão, perseguições, mortes e humilhações, e ainda tiveram sua arte completamente marginalizada e sua cultura totalmente escravizada por uma sociedade moralista [e respectivamente idiota, convenhamos!] que, não contentes, ainda faziam questão de excluir também os homossexuais e deficientes físicos. Todos eles sofreram na época em que os donos de estabelecimentos comerciais pediam a retirada dos mesmos de seus recintos, caso algum outro cliente se sentisse desconfortável.

Uma sociedade totalmente envergonhada por seu orgulho narcisista, ferida pela glória de guerras vencidas covardemente – já que a bomba em Hiroshima e Nagasaki, até hoje, foi o maior ato terrorista do mundo -, um crime imperdoável contra vítimas inocentes, fora de todos os códigos de guerra, ou mesmo, de honra. E os negros norte-americanos ainda tiveram que morrer nas linhas de frente da guerra do Vietnã por uma sociedade que os odiavam e queimavam suas igrejas. Os mesmos negros que tiveram o rock roubado pela mídia branca, pois sabiam que aquela “chata” Country Music não chegava aos pés do novo ritmo do momento e por conta disso, trataram de correr atrás de uma voz branca que tivesse o mesmo tom negro de cantar o rock. E foi assim que elegeram Elvis Presley como o ‘Rei do Rock‘, um branco que teve a sorte de cantar como um verdadeiro negro em clubes proibidos da época, mas que nunca seria um Chuck Berry.

O racismo norte-americano que tinha a Ku-Klux-Klan como símbolo maior até hoje existe, mesmo sendo de uma forma bem mais discreta, pois os milionários da época que apadrinhavam a KKK já não possuem o mesmo poder de antigamente. sem contar que tal sigla ainda serve para expressar gargalhada, pois os Estados Unidos já teve um homem negro na Casa Branca [ironia, não?].

E no Brasil?

Ah! Aqui no Brasil, o racismo tem sido tolerado pacificamente… Logo, não existe um brasileiro racista [ora!], já que o Pelé é nosso rei, não é verdade? Balela! Aqui tudo é camuflado [o que chega a ser muito pior!], pois se trata de uma forma de racismo passado de pai para filho disfarçada através de piadinhas “inocentes”, brincadeiras que se espalham por toda a sociedade, no trabalho e, principalmente, na escola onde, muitas vezes, são apoiadas pelos próprios professores que também foram influenciados indiretamente [ou diretamente?] e sem percepção do mal que estão causando.

No Brasil existe racismo?

É claro que não! A princesa Isabel é uma santa por ter assinado a lei Áurea. O Brasil é um país muito bom por ter abolido a escravidão e, como forma de “justiça”, trouxe os imigrantes italianos, japoneses, alemães e de outros países europeus para trabalharem no lugar dos negros. Só tem um pequeno detalhe: esses imigrantes não eram escravos, e sim trabalhadores que ganhavam bens e terras em troca de seus serviços – que, a propósito, era o mesmo tipo de trabalho realizado pelos negros durante toda a sua vida que, mesmo depois de livres, não tinham sequer um poço de lama para cuidar.

E parece, meu caro leitor, que tudo isso influenciou diretamente em toda a sua descendência. O reflexo disso se vê ainda nos dias de hoje, pois os negros deixaram a escravidão para se tornarem uma espécie de “bichos do mato” sem cidade, escola, saneamento básico, tratamento médico e, infelizmente, sem pátria.

Negros que foram roubados da mãe África, são roubados aqui e roubam daqui. Seus roubos, por vezes, são noticiados como forma de sobrevivência e se quebram até mesmo na busca de manter seus vícios, já que o branco tem dinheiro para fumar seu baseado e cheirar sua cocaína na mais pura paz e tranquilidade, dentro de seus condomínios fechados e seguros, enquanto o negro se encontra dentro da favela – a maior herança herdada da abolição -, da qual muitos fazem questão de desprezar ao dizer: “Daí é que saem todos os vícios e drogas do país!” [só não se pergunta por onde e como essas “drogas” e “vícios” entram e por quem são financiados, não é mesmo?].

Ainda bem que o racismo no Brasil é tolerado pacificamente, pois a cota para negros nas universidades, na verdade, nada mais é que uma forma de dar oportunidade para os menos favorecidos e herdeiros da abolição. Já para os herdeiros dos imigrantes, tal oportunidade soa como sinal de “incapacidade intelectual” e, ao pensarem dessa maneira, só estão desmerecendo o maior romancista brasileiro de todos os tempos – o grandioso Machado de Assis, presidente da Academia Brasileira de Letras, que era negro, filho de escravo e que tinha sua foto clareada para poder ser exibida, ou seja, “incapacidade intelectual” se encaixa dentro do conceito de que, sim, o racismo em nosso país é apenas tolerado pacificamente.

Por fim, no Brasil, se o cidadão nasce loiro e de olhos azuis, já é logo visto como um futuro médico ou modelo, mesmo que este venha a se tornar o pior dos bandidos no futuro, enquanto nascer negro já é visto e considerado como tal, pois, ao que tudo indica, a cor da pele importa mais e tem influência direta. Logo, meu querido leitor, se você é negro, então sabes muito bem que para ser bem sucedido e respeitado, você precisa lutar e trabalhar duro para se tornar um jogador de futebol, um cantor de pagode, um dono de morro ou, até mesmo, para ir pular carnaval na Bahia e conhecer uma gringa com quem possa se casar. Agora, ser negro e querer se formar em direito, será uma luta infinita, pois é pouco provável que consiga ser respeitado, mesmo após formado, e o motivo é bastante simples e nenhum pouco racista – o problema mesmo é que a coisa tá “preta” e precisa ser clareada… Por isso, Joaquim Barbosa fez toda a diferença.

 

*Sid Sheldowt é compositor, poeta e escritor. Autor do livro Apocalipse Tribal.

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