O abatimento de um míssil procedente do Irã pela Turquia, nesta quarta-feira (4), é interpretado por especialistas como um sinal […]

(Foto: Reuters)

Irã testa limites ao atingir Turquia e amplia risco de guerra regional

O abatimento de um míssil procedente do Irã pela Turquia, nesta quarta-feira (4), é interpretado por especialistas como um sinal de que Teerã pode estar disposto a levar o conflito ao limite para pressionar adversários e elevar o custo da guerra na região. A avaliação é do professor de relações internacionais da PUC Minas, Danny Zahreddine, que aponta a adoção da estratégia conhecida como “brinkmanship” — levar a situação à beira do abismo para demonstrar que o confronto pode sair do controle e gerar perdas generalizadas, inclusive para Estados Unidos e Israel.

Segundo Zahreddine, ao atacar bases norte-americanas em 12 países do Golfo e lançar um míssil sobre a Turquia — país integrante da Otan — o governo iraniano sinaliza disposição para ampliar o confronto. “É a estratégia de ‘bailar à beira de um abismo pedregoso’. É mostrar aos inimigos que, em um determinado ponto, a guerra pode sair do controle. E, ao sair do controle, todos vão perder muito, inclusive quem ataca”, afirmou. Para ele, quando um país convence o oponente de que está disposto a assumir perdas extremas, o custo da ação militar aumenta significativamente.

A Turquia confirmou que o míssil cruzou os espaços aéreos do Iraque e da Síria antes de ser interceptado por baterias antiaéreas da Otan, sem registro de vítimas. Em nota, o governo turco declarou que se reserva o direito de responder a qualquer atitude hostil e informou que seguirá em consulta com a aliança militar e demais aliados. O Irã ainda não comentou oficialmente o episódio.

O caso também reacende tensões envolvendo a questão curda. Veículos da imprensa norte-americana noticiaram que a CIA estaria avaliando apoio a grupos separatistas curdos no Irã, o que poderia desestabilizar ainda mais a região. Espalhado por Turquia, Irã, Iraque e Síria, o povo curdo reivindica, em parte, a criação de um Estado próprio — proposta rejeitada por Ancara, que vê risco à integridade territorial turca.

O analista militar Robinson Farinazzo alerta que eventual apoio dos EUA a grupos curdos pode colocar a Turquia em posição delicada dentro da Otan. Já Zahreddine avalia que esse seria o “plano B” de Washington e Tel Aviv para pressionar o regime iraniano, mas pondera que não há unidade entre os curdos iranianos e que a estratégia envolve riscos históricos de abandono político.

Apesar da superioridade militar de EUA e Israel, especialistas avaliam que o fator tempo pode favorecer Teerã caso o conflito se prolongue. Farinazzo compara o cenário a um possível desgaste semelhante ao da Guerra do Vietnã, com impacto interno nos Estados Unidos. Zahreddine destaca ainda a capacidade produtiva iraniana de drones e mísseis balísticos, o que indicaria preparo para uma guerra de longa duração, embora ressalte que a resistência dependerá da intensidade dos ataques e da sustentação interna do regime.

(*)Fonte: A Crítica

Deixe um comentário