Por: Sid Sheldowt Na ribalta política, ela ergueu a bandeira do trabalhador – a PEC do fim da escala 6×1, […]

(Foto: Vinicius Loures)

Crônica: Desvio de função, desvio de discurso

Por: Sid Sheldowt

Na ribalta política, ela ergueu a bandeira do trabalhador – a PEC do fim da escala 6×1, que promete dignidade, descanso semanal de quatro dias, toneladas de aplausos nas ruas e respaldo de 234 deputados. Defensora ardorosa do “Vida além do Trabalho”, Erika Hilton posou como mãe dos oprimidos, portadora da tocha da justiça laboral. E agora? Sob os holofotes, vem a revelação: ela ostenta dois maquiadores – com salário de até R$ 9.678 por mês bancados pela Câmara.

A contradição é nítida: quem critica o 6×1 por retirar descanso, coopta mão de obra para ajustarem sua aparência. Índy e Ronaldo, maquiadores, ocupam cargos de “secretário parlamentar”, foram contratados por “contribuírem muitíssimo” com a pauta LGBTQIA+, mas nas redes ostentam cliques de bastidores: “Mother Erika Hilton para sua condecoração…”; “Erika Hilton com beleza minha…”

E ali, entre selfies e pincéis, emergem as sombras do desvio de função – chamar maquiadores de assessores para maquiagem institucional é estratégia cinematográfica de cortina de fumaça.

Mas a hipocrisia não para por aí. Alegação de que os maquiadores são servidores versáteis – preparam briefings, relatórios, atendem comissões, viajam a Europa – é contradita pela ausência de vestígios desses trabalhos nas redes ou nos corredores do Congresso. A oposição protocolou denúncias na PGR, no MPF e no Conselho de Ética, acusando uso de verba pública para fins pessoais, desvio de finalidade, improbidade administrativa.

E lá está Hilton, diante do espelho, justificando: “se não me maquiassem, continuariam assessores”. Mas será que ainda veríamos a túnica do legislador se não fosse maquiar? No palco da representatividade, ela declamou contra o cansaço do trabalhador. Já sob os holofotes da própria vaidade, contrata maquiadores com o dinheiro de quem luta contra a escala 6×1 e o desgaste que ela provoca. Há quem chame isso de duplo padrão; eu chamo de maquiagem para a consciência própria.

A PEC do descanso promete aliviar o peso sobre os ombros dos trabalhadores — mas enquanto isso, o gabinete que a propõe recicla recursos públicos para embelezar sua principal figura. Se era para trazer leveza, que fosse para o povo. Agora, na deriva do discurso, somos convidados a acreditar que um toque de pó resolve tudo: desgaste legislativo, crise de imagem, crítica funda, ética questionada. Mas pelos corredores marmóreos da Câmara essa maquiagem é ralo: camufla o que não deveria existir — o desvio de função, a exploração de prerrogativa alheia, a incoerência entre discurso e prática. E isso não se resolve com base: exige transparência.

*Sid Sheldowt é escritor, poeta e compositor

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