Na natureza, cores vivas quase sempre são um aviso: cuidado, perigo à vista. Entre os anfíbios, sapos, rãs e pererecas […]

Besouro amazônico engana predadores ao imitar rã venenosa
Na natureza, cores vivas quase sempre são um aviso: cuidado, perigo à vista. Entre os anfíbios, sapos, rãs e pererecas exibem tonalidades vibrantes justamente para alertar predadores sobre a presença de toxinas — uma estratégia chamada de aposematismo.
Mas uma recente descoberta científica trouxe um novo protagonista a essa história: um besouro amazônico do gênero Cratosomus, ainda sem nome científico ou popular, que imita a coloração da Ameerega trivittata, a rã-flecha de tons verde e preto conhecida por ser venenosa. O estudo, publicado em março de 2024 no Boletim Herpetológico, revela o primeiro caso documentado de mimetismo entre insetos e anfíbios.
O inseto e a rã compartilham características semelhantes: ambos medem cerca de 4 centímetros e foram encontrados na Amazônia, em Puerto Misahualli, província de Napo, no Equador. Segundo os pesquisadores, o besouro foi observado ocupando o mesmo microhabitat da rã, caminhando tanto na vegetação quanto no solo.
O biólogo Ubiratã Souza, mestrando em Ecologia na Unicamp e um dos autores do artigo, explica que o mimetismo é uma forma de “imitação estratégica”. Espécies inofensivas podem se beneficiar ao copiar o padrão de cores de animais perigosos, enganando predadores. Esse processo pode se dar de duas formas: mimetismo batesiano (quando apenas o modelo é tóxico) ou mülleriano (quando tanto o modelo quanto o imitador são venenosos).

No caso do novo besouro, ainda não se sabe se ele é tóxico ou não, o que mantém em aberto a classificação do mimetismo. Mesmo assim, o professor Luís Felipe Toledo, também autor do estudo, destaca a relevância da descoberta:
— Esse é o primeiro caso de um anel mimético entre insetos e anfíbios. É impressionante porque era algo esperado, mas nunca documentado. Acreditamos que esse trabalho possa estimular novas pesquisas.
Segundo Toledo, o padrão de cores do besouro pode afastar predadores como aves — animais que identificam colorações de alerta — mas não se descarta que outros grupos também evitem o inseto.
Assim, um pequeno besouro amazônico passa a ocupar espaço entre as histórias fascinantes da biodiversidade: um imitador que, ao vestir as cores de uma rã venenosa, pode estar garantindo sua sobrevivência em meio à selva.
