Ah, que espetáculo! O palco da política, sempre tão generoso em suas performances de hipocrisia e sarcasmo involuntário. Cenário perfeito […]

A Hipocrisia Política: Homenagens póstumas enquanto a arte local definha em vida
Ah, que espetáculo! O palco da política, sempre tão generoso em suas performances de hipocrisia e sarcasmo involuntário. Cenário perfeito para o mais recente ato: a morte de Teixeira de Manaus, o saxofonista que fez o “beiradão” ecoar pelos becos e vielas de nossa amada terra. E como de costume, nossos queridos políticos, esses eternos artistas do oportunismo, não perderam a chance de transformar suas redes sociais em um funeral.
Vejamos, por quatro anos, nossos ilustres representantes dedicam-se com afinco ao nobre ofício de homenagear… ah, quem mesmo? Ah, sim! Artistas de fora, subcelebridades que mal sabem apontar Manaus no mapa, bajuladores profissionais e toda uma constelação de “amiguinhos” que giram em torno do orçamento público. Esses sim, merecedores de aplausos e reverências em vida. Afinal, a arte de puxar o saco exige talento, não é mesmo?
Mas, eis que surge a pergunta: onde estavam esses patronos da arte quando Teixeira de Manaus enchia o ar com as notas do seu sax antes de adoecer? Ah, claro, ocupados demais homenageando o que é de fora, o que é importado, o que é… irrelevante.
E agora, com a morte de Teixeira de Manaus, o espetáculo atinge seu clímax. Redes sociais inundadas de luto, declarações emocionadas, e aquela cara de pau inabalável ao dizerem o quanto Teixeira de Manaus era importante. Ora, mas não era ele que soprava vida na cultura amazônica enquanto vocês aplaudiam o que vinha de fora?
Oh, e como são rápidos em erguer homenagens póstumas! Daqui a pouco vão mandar erguer monumentos, nomes de ruas, medalhas… Agora que o homem não está mais entre nós para recusar. Agora que ele não pode mais dizer: “Ei, por que não me ajudaram quando eu estava vivo, tentando promover nossa cultura?”.
A morte, essa sim, parece ser a grande incentivadora da cultura no palco político. Na vida, nossos artistas locais são invisíveis, mas na morte, transformam-se em ícones, em mártires, em estrelas de um show melancólico e repleto de falsidade.
Pobres de nós, meros espectadores dessa comédia dramática. Pobres de nossos artistas que, em vida, são ignorados, e na morte, tornam-se personagens de um teatro político de luto e hipocrisia.
E assim, a cortina se fecha mais uma vez, deixando para trás o eco da música de Teixeira, que, ao contrário dos aplausos vazios de nossos políticos, reverberará autêntica e eternamente no coração da verdadeira cultura amazônica.
Tive a oportunidade de gravar uma canção chamada “Tio João e Tia Carminha” com a Banda Encante, onde homenageamos o mestre Teixeira de Manaus, por isso, sei que ele sempre estará sendo homenageado e eternizado em nossos shows.
Sid Sheldowt é Escritor, Poeta e Compositor.
