Por Sid Sheldowt Celebrado em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra sempre me soa como aquele despertador que […]

Foto: Reprodução | Open Democracy

A consciência que nem sempre quer despertar

Por Sid Sheldowt

Celebrado em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra sempre me soa como aquele despertador que toca, toca, toca… mas muita gente continua dormindo. Celebramos Zumbi, falamos de luta, resistência, orgulho — mas, na prática, às vezes parece que estamos lutando contra espelhos rachados. Porque o racismo existe, é pesado, dói — mas o que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta é que algumas rachaduras também vêm de dentro da própria casa.

Eu já vi a comunidade negra desdenhar a morte de uma policial negra, virar as costas para um cantor negro, hostilizar um político negro, ignorar uma professora negra e calar diante do sofrimento de adolescentes negros. Silenciar de verdade — como se todas essas pessoas tivessem, de antemão, escolhido o lado ‘errado’ do tabuleiro. Já reparei como o barulho depende do “tipo de negro” que cai. Alguns são usados como bandeira; outros, como rodapé. Por quê? Questão incômoda, dessas que ninguém gosta de encostar. Talvez porque dói admitir que não é só o racismo externo que nos separa, mas conflitos internos, expectativas e cobranças que nós mesmos criamos.

E olha que eu falo com propriedade: sou negro, preto tipo “A”. Na escola tentaram me reduzir somente pela cor da minha pele — apelidos, risadinhas, provocações. Doeu, lógico que doeu. Mas um dia eu me olhei no espelho, vi minha cor brilhando como nunca, e decidi: ninguém mais vai me diminuir por isso. A partir dali, acabou. Nunca mais alguém conseguiu me humilhar ou me fazer acreditar que eu valia menos. Aprendi a me amar antes que o mundo tentasse me ensinar o contrário.

O mais louco é que vejo muitos irmãos e irmãs ainda carregando um peso que não é deles. Gente que confunde racismo com destino, preconceito com profecia. Gente que ainda acredita que ser negro é sinônimo de derrota anunciada. Não é. Nunca foi. O vitimismo não salva. O orgulho, sim. O orgulho da história, da pele, da caminhada — mesmo que o caminho seja torto, cheio de espinhos e atravessado por gente que prefere nos ver tropeçar.

Enquanto isso, o país inteiro repete discursos sobre igualdade, equidade, justiça. Tudo muito bonito, muito acadêmico. Mas a real é que o Brasil gosta de celebrar a Consciência Negra como quem arruma apenas a sala antes da visita chegar: por cima, rápido, superficial. O resto da bagunça fica escondido no quarto — inclusive os conflitos internos, as disputas de narrativa, a falta de unidade, o medo de discutir o que realmente importa.

Sim, ainda há muito a fazer. Mas enquanto a consciência for seletiva, conveniente e barulhenta só quando interessa, vamos continuar andando em círculos.

Eu sigo daqui, negro, orgulhoso, inteiro — consciente de mim antes de ser consciente do mundo. Porque, no fim, a verdadeira libertação começa quando a gente entende que a cor da nossa pele nunca foi o problema; o problema é quando esquecemos de honrá-la.

*Sid Sheldowt é Escritor, Poeta e Compositor

**Os textos (artigos, crônicas) aqui publicados não refletem necessariamente a opinião da Div Agência de Comunicação – Portal do Minuto.

Deixe um comentário