Por: Sid Sheldowt Tem uma parte de Manaus onde não nasce gente. Ela apodrece. E fede. É lá, entre o […]

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Recém-nascidos, recém-descartados de Manaus

Por: Sid Sheldowt

Tem uma parte de Manaus onde não nasce gente. Ela apodrece. E fede.

É lá, entre o fim da rua e o começo da vergonha, que vão parar os corpos pequenos demais pra ter nome, mas grandes o suficiente pra nos esmagar de culpa. Lixo. Isso que viraram. E não é força de expressão. É literal: jogados em sacos pretos, enfiados em baldes, esquecidos em caçambas. Amarrados com barbante, ainda com o cordão umbilical quente — como se fossem restos de carne estragada de feira.

Março foi um berro. Um feto de cinco meses jogado no lixo da zona Norte. Um recém-nascido semi-devorado por cachorro na zona Leste. Uma menina morta com saco na cabeça, apodrecendo dentro de uma lixeira na zona Sul. Três pontos da cidade unidos por uma mesma podridão: o abandono. E não o abandono metafórico, emocional. Estou falando do abandono físico. Literal. Nu. Cru. Mortal.

E ninguém viu. Ninguém sabe. Ninguém foi. Ou todo mundo foi um pouco.

A mulher que não teve apoio, que não teve direito ao desespero. A família que virou as costas. O sistema de saúde que encolheu os ombros. A sociedade que grita “pró-vida” com a boca e cospe julgamento pelas mãos. A igreja que prega salvação mas fecha as portas. A imprensa que noticia, mas logo esquece. A polícia que investiga e arquiva.

Somos todos cúmplices. Mesmo que em silêncio.

E o mais cruel não é o descarte. É o silêncio posterior. Nenhuma passeata. Nenhuma política pública emergencial. Nenhum “e se fosse o seu filho?”. Só o zumbido das moscas. O miado dos gatos famintos. O ronco do caminhão do lixo levando embora o que sobrou da vida.

Dizem que nascemos com direitos. Mas tem criança que nasce já condenada à lixeira. Sem CPF, sem batismo, sem colo. E o que sobra? Uma nota no rodapé dos sites. Uma matéria com título asséptico: “Bebê é encontrado em saco plástico na rua”. Como se isso fosse normal. Como se isso não fosse uma tragédia diária. Como se isso fosse só mais um fato.

Manaus sangra nas entrelinhas. Mas ninguém lê.

E assim seguimos, virando a cara. Fingindo que a cidade não fede a descaso, a medo, a covardia. Até que outro choro silencioso seja abafado por um saco preto e vá parar, de novo, na esquina onde os filhos que ninguém quis são recolhidos junto com o lixo reciclável.

Sid Sheldowt é escritor, poeta e compositor

**Os textos (artigos, crônicas) aqui publicados não refletem necessariamente a opinião da Div Agência de Comunicação – Portal do Minuto.

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