Por: Sid Sheldowt O Amazonas vai ganhar mais dois deputados federais. É o que diz o projeto aprovado no Senado […]

Amazonas ganhará mais dois deputados — mas o povo ganhará o quê?
Por: Sid Sheldowt
O Amazonas vai ganhar mais dois deputados federais. É o que diz o projeto aprovado no Senado nesta semana, que amplia de 513 para 531 o número de cadeiras na Câmara dos Deputados. Um presente dado à população após o censo demográfico apontar crescimento em alguns estados. Mas será mesmo um presente?
Em tempos de crise econômica, com a população lutando para manter o básico — comida na mesa, transporte, saúde, segurança —, a classe política decide ampliar a bancada federal como quem amplia a sala da casa para receber visitas que não aparecem. Dizem que não haverá aumento de gastos. Juram que não vai custar um centavo a mais ao erário. Mas também já juraram que a gasolina ia baixar, que o auxílio ia subir e que a corrupção tinha acabado. A história, como sabemos, não confirma esses juramentos.
Enquanto o povo do interior do Amazonas precisa navegar horas por um igarapé para conseguir atendimento médico, dois novos representantes estarão em Brasília com mais estrutura, mais assessores, mais discursos, mais promessas. Resta saber: serão representantes de verdade ou apenas ocupantes de espaço?
É curioso como a matemática da política é sempre elástica. Para evitar que estados como Rio de Janeiro e Bahia percam cadeiras com base no critério populacional, preferiram inflar o número total. Cortar nunca é uma opção. Multiplicar, sim. Afinal, dividir as responsabilidades entre mais parlamentares soa melhor do que encarar o desgaste de dizer “não” aos próprios pares.
O Amazonas, que enfrenta tantos gargalos estruturais, sociais e ambientais, precisa mesmo de mais deputados… ou de representantes melhores? Porque quantidade, definitivamente, não é sinônimo de qualidade. E se for para aumentar a bancada apenas para manter a velha lógica da política que se reproduz sem mudar a realidade de quem precisa, talvez seja melhor manter como está — ou até reduzir.
O povo, esse sim, continua com a mesma quantidade de problemas. E com cada vez menos paciência para discursos embalados em papel de presente legislativo.
*Sid Sheldowt é escritor, poeta e compositor
